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Homilia do 4º Domingo da Quaresma - A

Homilia do Quarto Domingo da Quaresma – Ano A
Pe. Kleber Rodrigues da Silva

Irmãos e irmãs,

Estamos avançando no nosso caminho quaresmal. Já passamos pelo deserto com Jesus, pela montanha, pelo encontro no poço de Jacó, e hoje a liturgia nos conduz a outro lugar muito significativo: a Piscina de Siloé, que quer dizer “Enviado”. Esse nome já aponta para o centro do Evangelho de hoje: Jesus é o Enviado do Pai, aquele que realiza a sua obra, e o cego de nascença é enviado para lavar-se e voltar vendo, até chegar a dizer com firmeza: “Eu creio, Senhor”.

A cena começa com um homem cego de nascença. Ele não vê, não trabalha, vive mendigando. Na mentalidade da época, sua cegueira era vista como castigo, como consequência de um pecado — seu ou de seus pais. Por isso, quando os discípulos olham para aquele homem, a pergunta deles é: “Quem pecou? Ele ou seus pais?”. Vejam: os discípulos são os primeiros destinatários da ação de Jesus. Eles precisam aprender a mudar o olhar, a deixar para trás essa imagem de um Deus que castiga, para enxergar o Deus que salva.

Jesus, então, responde dizendo, em outras palavras: “Não se trata de castigo. Trata-se de manifestar a obra de Deus”. E qual é essa obra? É a obra da salvação. É Deus devolvendo dignidade àquele homem, atingido não apenas pela cegueira física, mas também pela exclusão, pelo preconceito, pela culpa que lhe foi colocada sobre os ombros.

A ação de Jesus com o cego de nascença retoma, de forma bonita, o gesto da criação. Lá no Gênesis, Deus toma do barro e modela o ser humano. Aqui, Jesus toma da terra, faz lama, passa nos olhos do cego e o envia à Piscina de Siloé. É como se o Evangelho nos dissesse: aqui está o novo gesto criador de Deus, aqui está o novo Adão. Jesus, obediente ao Pai até as últimas consequências — até a cruz —, reconstrói aquilo que o pecado havia ferido.

Depois, vem o convite: “Vai lavar-te na piscina de Siloé”. Esse detalhe não é apenas geográfico, é profundamente simbólico. Aquele banho aponta para o Batismo, para a regeneração, para a vida nova. Lembra a água viva oferecida à samaritana no domingo passado, lembra a água que jorrará do lado aberto de Cristo na cruz. Por isso, a liturgia de hoje une, mais uma vez, o caráter batismal e o caráter penitencial da Quaresma: é tempo de banho, de nova visão, de vida nova; e é tempo de remissão do pecado, da culpa, daquilo que nos cega e nos impede de ver a nós mesmos e aos outros com o olhar de Deus.

A Quaresma quer formar em nós exatamente essa percepção: os atos penitenciais que fazemos — jejum, esmola, oração, confissão — não são um fim em si mesmos. Eles existem para nos purificar, para fortalecer em nós a consciência batismal, para renovar a certeza de que somos filhos e filhas de Deus, amados, chamados à dignidade e não à culpa estéril.

A partir da cura, o texto nos apresenta três grupos que reagem à ação de Jesus: os vizinhos, os fariseus e a família do homem curado.

Primeiro, os vizinhos. São eles que veem aquele que até ontem era cego e mendigo, e agora está de pé, enxergando, com outra postura. Mas eles não conseguem acolher o sinal. Ficam presos à dúvida: “É ele? Não é ele? Parece com ele…”. Não conseguem enxergar o resgate da dignidade daquele homem. São, de certa forma, cegos também. E é interessante que o próprio ex-cego tenha que dizer: “Sou eu mesmo!”. Ele não está apenas dizendo: “Sim, sou o mesmo que vocês conheciam”. Ele está afirmando sua identidade restaurada: “Sou eu, inteiro, digno, de pé”.

Depois, vêm os fariseus. O homem é levado até eles, porque, nesse nível, precisa-se de uma explicação “religiosa” para o que aconteceu. A preocupação deles não é a pessoa; é o sábado. Jesus curou num dia que, segundo a interpretação deles, não se podia fazer esse tipo de ação. Então, para os fariseus, quem faz esse bem, mas num dia “proibido”, é pecador. A grande pergunta que o texto nos coloca é: onde está o peso maior? No sábado, na lei, ou na pessoa humana que recupera a vista e a dignidade? Quando a lei ocupa o lugar da pessoa, também nós ficamos cegos.

Por fim, a família. Os pais daquele homem confirmam que ele era cego, confirmam que é maior de idade, mas por medo das autoridades, não se comprometem com a experiência de fé do filho. Em outras palavras, atestam o fato, mas não entram no testemunho. Quantas vezes, por medo, por conveniência, por acomodação, também nós deixamos de apoiar o caminho de fé de alguém, deixamos de nos alegrar com a obra de Deus na vida dos outros?

Enquanto isso, o homem curado vai fazendo seu caminho quaresmal pessoal. Aos poucos, ele vai amadurecendo sua compreensão sobre Jesus. Primeiro, ele o vê como “um homem”. Depois, reconhece-o como “profeta”. Mais adiante, admite que Jesus só pode vir de Deus. Até chegar, finalmente, ao encontro pessoal com Ele, quando Jesus se revela como o Filho do Homem, e ele responde com a profissão de fé: “Eu creio, Senhor!”. Esse é o ápice: o cego não só enxerga com os olhos; agora ele enxerga com a fé.

O que esse Evangelho quer provocar em nós, nesta quarta semana da Quaresma?

Que os nossos encontros com Jesus também nos façam passar da cegueira à visão. Que nos ajudem a ver onde colocamos mais peso: na norma ou na pessoa; no costume ou no Evangelho; na aparência externa ou na dignidade dos irmãos. Que a nossa fé cresça a ponto de podermos dizer, com verdade, com a vida e não só com a boca: “Eu creio, Senhor!”.

Caminhamos para a Páscoa. Lá, diante do Crucificado e Ressuscitado, essa profissão de fé será decisiva: reconhecer que Aquele que foi rejeitado, condenado e morto é o mesmo que agora vive e nos comunica vida nova. Esse é o final do nosso caminho quaresmal: chegar à Páscoa com uma fé mais madura, com a consciência batismal renovada, com o coração purificado pela penitência e com os olhos abertos para a dignidade de cada pessoa.

Que o Senhor nos cure das nossas cegueiras e nos conceda a graça de viver e proclamar, com sinceridade: “Eu creio, Senhor!”.

 
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